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CORONAVÍRUS

Mortes poderiam ser evitadas, afirma pesquisadora da Fiocruz

Idealizadoras de plano de enfrentamento à covid-19, organizações de saúde coletiva cobram implementação de propostas e responsabilidade do governo Bolsonaro

11/08/20, 12:25

I
ncansáveis e comprometidos com a defesa da vida, cientistas, pesquisadores e profissionais da saúde contestam a narrativa de “naturalização” das mortes pela covid-19, e destacam que ainda há tempo para que o Brasil impeça uma tragédia ainda maior na pandemia. Já são 101.752 vidas perdidas, conforme boletim desta segunda-feira (10) do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). E mais de 3 milhões de infectados.

Apesar do panorama, a aposta de organizações de saúde coletiva é o Plano Nacional de Enfrentamento à Pandemia de Covid-19. Formulado por 11 entidades da Frente pela Vida, o documento dita os rumos e recomendações “em resposta à omissão” do governo de Jair Bolsonaro. Há mais de um mês, a proposta é de conhecimento do Ministério da Saúde, mas segue sem ser implementada. Ao mesmo tempo, a virulência do novo coronavírus é cada vez maior, em descompasso com a falta de coordenação da União com os governos estaduais e municipais. Evidencia-se a tendência de que, “se tudo continuar assim”, o Brasil logo mais ultrapassará a marca de 200 mil mortos.

Caminho trágico

É o que calcula a médica sanitarista Lúcia Souto, presidenta do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (Cebes) e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em entrevista a Marilu Cabañas, do Jornal Brasil Atual, Lúcia chama de “degradante”, “inadmissível” e “desastre” a situação do país hoje frente à covid-19. Para ressaltar que, ainda assim, “é possível mudar os rumos dessa catástrofe sanitária. Não é preciso o Brasil e famílias inteiras sofrerem, perdendo seus entes queridos, companheiros de trabalho, amigos e amigas”.

“Nós não podemos conviver com esse tipo de comportamento do presidente da República, que não tem a menor empatia e solidariedade com a população. E chega a ser um deboche, uma afronta à nossa sociedade”, fala a médica em referência às declarações de Bolsonaro, que na iminência da marca de 100 mil mortos, disse que era preciso “tocar a vida” e encontrar uma maneira de “se safar desse problema”. No sábado, quando o país atingiu o trágico dado, o presidente preferiu ainda parabenizar o Palmeiras pela conquista do campeonato paulista.

“Por isso que nós, entidades, nos unimos e redigimos um documento para apresentar à sociedade. Porque achamos que essa lacuna de uma autoridade sanitária, e de uma autoridade no nível da presidência da República, está comprometendo e matando vidas de brasileiros e brasileiras. São mortes que poderiam ser evitadas. Isso é importante dizer, nós não precisamos continuar percorrendo esse caminho trágico que a sociedade brasileira está percorrendo”, afirma a presidenta do Cebes.

Há tempo e correções

Entre as correções, o plano coloca como insubstituível a coordenação nacional. “O governo federal tem que assumir as responsabilidade que lhe cabe”, lembra Lúcia. E defende a importância de uma comunicação “clara e democrática”, contra confusões que possam ser prejudiciais à população, entre elas, “um presidente que receita medicamentos que não estão comprovados”.

O combate à pandemia também prevê estratégias como o rastreamento da doença por meio de testagem. Com profissionais de saúde bem pagos para poder fazer a vigilância ativa dos casos, identificando focos de infecção e abrindo medidas de isolamento, no caso da doença ser confirmada. Além de demandar a chamada “proteção social radical”, com a implantação da renda básica de cidadania universal.

Ao todo, são 60 páginas analisando toda a complexidade da pandemia, alertando sobre o panorama epidemiológico da covid-19 e as questões de consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), como já mostrou a RBA. Três representantes das áreas de Atenção Primária e Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde já foram apresentados ao plano, de acordo com a presidenta do Cebes. À época, eles informaram que o estudariam. Mas as organizações de saúde coletiva cobram que a pasta “assuma pelo menos um plano. Dialogando com o nosso, com a sociedade, com os secretários estaduais de saúde. Mas que apresente um plano”, explica Lúcia.

Problemas se acumulam

Até o final de julho, o ministério havia gastado apenas 29% da verba emergencial prevista para o combate da pandemia. Levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) mostrou que apenas R$ 11,4 bilhões foram gastos do orçamento de quase R$ 29 bilhões disponíveis.

Desde então, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) e as entidades reivindicam a participação da sociedade civil no Centro de Operações de Emergência (COE) para corrigir esses erros. Os problemas, segundo eles, são enormes. Há cidades que não estão com a folha de pagamento dos profissionais de saúde em dia. Além de denúncias de que no Tocantins, por exemplo, há respiradores estocados que não estão sendo utilizados devido à ausência de profissionais para operar os aparelhos.

“Não ter pessoal para operar os respiradores, isso é criminoso, o nome disso é crime. Porque você teria condições. Esse governo que está aí, lá atrás acabou com o programa Mais Médicos. Nós tínhamos uma quantidade de profissionais no Brasil que foram simplesmente dispensados (…) Por que não podemos também identificar profissionais médicos no país inteiro e oferecer um salário até mais digno nesse momento para essas regiões que têm uma carência enorme?”, questiona a médica sanitarista.

De acordo com ela, se as medidas do plano não forem tomadas, no patamar que está a pandemia no Brasil, todos esses problemas tendem a piorar de uma maneira ainda mais acelerada. Esse é o momento, segundo Lúcia, de pressão popular.

“O Brasil tem que fazer um alerta. As pessoas não podem ficar naturalizando esse número absurdo de mortes, e nós temos responsabilidade. Cada um de nós é responsável pelo rumo que o país tem. Temos que pressionar o governo federal sim, porque ele tem uma responsabilidade pelo cargo que ocupa”, finaliza a presidenta do Cebes.


Fonte: JL/RBA
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